quinta-feira, 22 de março de 2012

Mario Quintana - Seleção poética


Mario Quintana – Seleção poética
Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológicos…

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida – a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os anjos entreolham-se espantados
quando alguém – ao voltar a si da vida -
acaso lhes indaga que horas são…

(poema do livro A Cor do Invisível. 2a. edição. São Paulo: Globo, 2005. p.96.) Canção do Amor Imprevisto

Sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E a minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.
Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,
Com o teu passo leve,
Com esses teus cabelos…
E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender

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                                           [ nada, numa alegria atônita…
A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos.
 (Antologia Poética. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2007. p. 64)
Coincidência – Mario Quintana
Às vezes a gente pensa que está dizendo bobagem e está fazendo poesia.
Hoje é Outro Dia – Mario Quintana
Quando abro cada manhã a janela do meu quarto
É como se abrisse o mesmo livro
Numa página nova…
Mario Quintana )
(Poema publicado originalmente no livro A Cor do Invisível, retirado de Poesia Completa – Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005, p. 855)
Invitation au voyage – Mario Quintana
Se cada um de nós, ó vós outros da televisão
- vós que viajais inertes
como defuntos num caixão -
se cada um de vós abrisse um livro de poemas…
faria uma verdadeira viagem…
Num livro de poemas se descobre de tudo, de tudo mesmo!
- Inclusive o amor e outras novidades.

Recordo Ainda… – Mario Quintana
VIII
(Para Dyonelio Machado)
Recordo ainda… e nada mais me importa…
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta…
Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança…
Estrada afora após segui… Mas, ai,
Embora idade e senso eu aparente
Não vos iluda o velho que aqui vai:
Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino… acreditai…
Que envelheceu, um dia, de repente!
Mario Quintana )
(A rua dos cataventos. Coleção Mario Quintana. 2a. edição. 6a. reimpressão. São Paulo: Globo, 2005. p. 26)

Homenagens

O Manuel Bandeira dedicou-lhe um poema, onde se lê:
Meu Quintana, os teus cantares
Não são, Quintana, cantares:
São, Quintana, quintanares.
Quinta-essência de cantares…
Insólitos, singulares…
Cantares? Não! Quintanares!
O pajador Jayme Caetano Braun, dedicou ao poeta a Payada a Mario Quintana, segue abaixo um trecho da poesia:
Entre os bem-aventurados
Dos quais fala o evangelho,
Eu vejo no mundo velho
Os poetas predestinados,
Eles que foram tocados
Pela graça soberana,
Mas a verdade pampeana
Desta minh’alma irrequieta,
É que poeta nasce poeta
E poeta é o Mario Quintana!


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