quarta-feira, 4 de abril de 2012

Fernando Pessoa - O amor, quando se revela-poesia


O AMOR, QUANDO SE REVELA



O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p’ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há-de dizer.
Fala: parece que mente…
Cala: parece esquecer…

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P’ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala
Fica só inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe,
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar…

Fernando Pessoa - Eu -poesia


EU


Sou louco e tenho por memória
Uma longínqua e infiel lembrança
De qualquer dita transitória
Que sonhei ter quando criança.

Depois, malograda trajetória
Do meu destino sem esperança
Perdi, na névoa da noite inglória
O saber e o ousar da aliança.

Só guardo como um anel pobre
Que a todo o herdado só faz rico
Um frio perdido que me cobre

Como um céu dossel de mendigo,
Na curva inútil em que fico
Da estrada certa que não sigo.

Fernando Pessoa - Caminho a teu lado mudo-poesia


CAMINHO A TEU LADO MUDO




Caminho a teu lado mudo.
Sentes-me, vês-me alheado...
Perguntas. Sim... Não, nem sei...
Tenho saudades de tudo...
Até, porque estás passando
Do próprio’ mal que passei.
Sim, hoje é um dia feliz.
Será, não sei, por certo...
Mas por certo não se vê
Há um sentido que me diz
Que este céu azul e aberto
É só o que nada é...

E lembro-me em amargura
Do passado, do distante,
E tudo me é solidão...
Quem fui nessa noite escura?
Quem sou nesta morte instante?
Não pergunto... Tudo é vão.